
Fiquei em Roma por duas semanas, resolvendo assuntos familiares e dando aquela “recarregada” necessária. A viagem foi ótima, para relaxar excelente para comprinhas de acessórios de cozinha e muito inspiradora gastronomicamente. Um dos meus achados por lá aconteceu na minha última noite na cidade. Visitei uma antica maccelleria (ou antigo açougue), o restaurante Checchino dal 1887 que, como o próprio nome indica, existe há 124 anos!
Quem me levou lá foi uma prima do meu marido, romana e grande conhecedora dos segredos de sua cidade. A casa é um “locale storico d’Italia” e fica na ao lado do Monte Testaccio, uma colina feita pelas mãos do homem! Isso porque a região era usada como “lixão” de cerâmicas na Roma Antiga. Era por lá que os moradores da cidade jogavam peças quebradas, como ânforas e jarros. A informação, claro, foi uma cortesia da prima, que também é arqueóloga!
A especialidade do Checchino são miúdos. Isso porque no século XIX, ali nas redondezas funcionava um abatedouro. Os funcionários que por lá trabalhavam, também chamados de vacinari, ganhavam como parte do salário a chamada “quinta parte do animal”, o quinto quarto, isto é, as vísceras. Eles levavam o “salário” para o Checchino, que tratava de transformar essas partes “menos nobres” em suculentos pratos. O abatedouro hoje é o MACRO (Museu d’Arte Contemporânea de Roma), mas o restaurante seguiu firme com sua missão e hoje é um dos mais tradicionais da cidade.
Estava muito curiosa para provar os pratos do Checchino e não me decepcionei nem um pouco! Comecei com um delicioso fígado de vitela, que eu amo de paixão. Segui então para coda alla vacinara, rabada feita à moda dos trabalhadores de antigamente, desfiada e servida com um espesso molho de tomate. Nota 10! Terminei com uma língua de boi em salsa verde, cortada em fatias finíssimas, superdelicada e saborosa. Queria muito, mas não consegui chegar às sobremesas e tampouco aos queijos, que desfilam num convidativo carrinho. As grappas e vinhos da carta também são excelentes!
Pra quem quer provar a cozinha romana de “raiz” taí uma ótima sugestão. Se miúdos não são bem sua praia, você terá uma ótima oportunidade de revisar seus conceitos. Afinal de contas, como eu vi alguém falando, “a cozinha de Roma é especial porque tratou de aperfeiçoar e tornar saborosos tudo o que era descartado por papas, cardeais, bispos, príncipes e nobres”. E depois, lembre-se: em Roma, faça como os romanos!
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